Na minha coluna de hoje, do Blog do Totonho, apresento a crônica "Será culpa do Android"?:
Dias atrás, um fato inusitado me fez perceber que a terceirização da culpa também evoluiu tecnologicamente. Há algum tempo, diziam que algo deu errado por conta do sistema tecnológico. Como, atualmente, vivemos a era do domínio da tecnologia, pode até acontecer uma queda de sistema ou qualquer outro problema. Mas parece-me um pouco inusitado o sistema cancelar um evento já agendado.
Em certa clínica médica, um senhor havia marcado, com antecedência, uma consulta com um médico especialista. A consulta foi marcada para uma terça-feira, às 9 horas. E assim partiu, rumo à clínica, esse senhor, no dia e no horário pré-determinados.
Ao chegar ao local, faltando quinze minutos para a consulta, dirigiu-se ao balcão de atendimento para atestar sua presença. A atendente solicitou-lhe os dados pessoais, nome e documentos. Ele prontamente os apresentou. E a atendente começou a busca. Tec tec... tec tec... o som ansioso do teclado era só o que se ouvia no local. Tec... Tec... e vem a primeira pergunta: "o senhor está agendado para que horas?" E o senhor respondeu: "para às 9 horas!". Tec...Tec... ruidava ansiosamente o teclado. E após muitos tecs, a atendente finalmente diz: "a sua consulta foi cancelada!" E o senhor, tomado por grande susto, responde: "Mas como? Eu não solicitei o cancelamento! Vocês cancelaram a consulta sem me avisar com antecedência e sem razão para isso, haja vista que o médico está atendendo?". E a atendente, interrompendo seu contínuo tec tec e mirando os olhos do senhor com seu olhar tecnológico, diz: "sua consulta foi cancelada pelo Android!". O senhor, até certo ponto adaptado à tecnologia, porém nem tanto a ponto de saber quem era aquele atrevido Android que cancelou a sua consulta sem nenhum aviso prévio, e também exímio conhecedor do jogo de culpas, tão comum na sociedade, responde: "Mas com que autorização ele fez isso? Quem é esse Android? Por acaso é ele o dono da clínica? Eu poderia falar com ele, por favor?".
Em seguida, após a atendente tentar, com seus poucos e rápidos monossílabos, explicar sem sucesso o ocorrido, surgiu um segundo atendente que, educadamente e, decerto, menos ansioso, forneceu os devidos esclarecimentos e informou ao senhor que iria "encaixá-lo" entre alguns dos horários agendados para aquela manhã, e solicitou que ele aguardasse na sala de espera.
Após o ocorrido, passei a imaginar como seria essa mesma cena daqui a alguns anos, quando a atendente ali talvez não mais estivesse e, em seu lugar, uma máquina, ou uma gravação da inteligência artificial, estivesse atuando. Com quem reclamar após receber a informação do cancelamento indevido? Quem trataria de "encaixar" aquele senhor entre os outros horários agendados?
Muitas perguntas ficam no ar quando imaginamos uma sociedade em que seus membros cada vez mais afastam-se do trato pessoal; uma sociedade selvagemente capitalista que prega o tempo inteiro que "tempo é dinheiro" e estimula uma constante ansiedade, gerando frieza e, até mesmo, impaciência e intolerância nas relações humanas; uma sociedade em que a inteligência humana pouco a pouco parece tornar-se obsoleta e substituível pela artificial.
E será mesmo culpa do Android?
Luciana G. Rugani
Escritora e experimentadora da arte
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