Na minha coluna de hoje, no Blog do Totonho, considerando o início, nesta sexta-feira (21), da 34ª edição da Semana Teixeira e Sousa, principal evento literário de Cabo Frio, falo um pouco sobre o tema e apresento um dos poemas com os quais participei de duas edições anteriores do Prêmio Teixeira e Sousa:
A Semana Teixeira e Sousa, principal evento literário de nossa cidade, foi instituída por meio da lei nº 1.106, de 15/10/1991, com o objetivo de resgatar a memória do escritor cabo-friense Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa (1812-1861), o primeiro romancista brasileiro. A mesma lei instituiu o Prêmio Teixeira e Sousa de Literatura, destinado a promover e incentivar a leitura e a escrita por meio da concorrência de produções literárias divididas nas categorias estudantil e público geral.
No ano de 2015, a lei 1.106 foi alterada pela lei nº 2.619, de 6/2/2015 que, entre outras disposições, aumentou o quantitativo de associações ligadas à cultura negra na organização do evento. Isso em razão de Teixeira e Sousa, em pleno século XIX, quando o racismo era institucionalizado por meio da escravidão e, nas palavras do pesquisador José Correia Baptista, ter sido um homem de "posições desafiadoras, marca de seu modo de ver o mundo e a realidade brasileira". Ainda segundo José Correia, "passamos a compreender que nosso escritor cabo-friense estava antenado com sua época e que em seus livros transparece, além do texto literário propriamente dito, um olhar sociológico, filosófico e ético, fontes renovadoras de sua produção". (trechos do texto de orelha de José Correia Baptista no livro "O filho do pescador - edição anotada, de Teixeira e Sousa", da Editora Sophia).
Teixeira e Sousa faleceu aos 49 anos e deixou uma vasta produção literária.
Em homenagem à Semana Teixeira e Sousa, compartilharei, hoje e na próxima semana, dois poemas de minha autoria com os quais participei das 31ª e 32ª edições da premiação.
Hoje apresento a vocês meu poema "De Teixeira a Elza", vencedor do 9º lugar na 31ª edição do Prêmio Teixeira e Sousa de Literatura, ano 2022. O tema proposto foi a relação de dois grandes artistas brasileiros, Teixeira e Sousa e Elza Soares, um século de distância entre si, com a questão da fome e da desigualdade social.
Segue:
De Teixeira a Elza
CORNÉLIA,
Em insondáveis pensamentos,
Absorvia, encantada,
Suave melodia de CÂNTICOS LÍRICOS
Da casa da esquina entoada.
Livros ali nasciam,
Histórias e romances surgiam.
Naquela noite, porém,
A música permitiam.
Teixeira e Sousa,
Escritor mulato cabo-friense,
Ali suas obras criava.
Em seus romances e tragédias,
Curava as dores sofridas:
O preconceito,
A pobreza.
Igualdade e amor,
Em suas obras, eternizava.
Com Teixeira e Sousa,
Da janela, Cornélia sonhava...
Sonhava com ele aprender a ler,
E a escrever.
Sonhava viver OS TRÊS DIAS DE UM NOIVADO
Com O FILHO DO PESCADOR.
AS TARDES DE UM PINTOR,
Por mais belas fossem,
Eram incapazes de reluzir
Uma só porção de seu amor.
Cornélia era negra,
Desnutrida,
De vida sofrida,
Escrava.
“Quiçá um dia!”
Sonhava.
Queria ser livre,
Como um pássaro a voar.
Trabalhar
Não deveria ser humilhar.
Seu choro e seu riso,
Deveriam respeitar.
Assim viveu Cornélia,
Em compasso e descompasso.
Uma vida pendular,
Com muitos sonhos a sonhar
E muita dor a cultivar.
No PLANETA FOME,
Cem anos a correr.
Nasceu ELZA NEGRA, NEGRA ELZA!
A mesma dor
O mesmo sofrer.
Elza era livre,
Prisioneira, porém,
Do mesmo sofrer
Que à Cornélia fez chorar:
O preconceito a verter
Dos olhos daqueles
Que a ela punham-se a mirar.
Elza também tinha sonhos a sonhar,
E amor a amar.
À vida, ELZA PEDE PASSAGEM,
NOS BRAÇOS DO SAMBA,
Deixa-se levar.
SANGUE, SUOR E RAÇA,
Toda sua vida abraça.
NA RODA DO SAMBA,
Seu nome ficou.
“SOMOS TODOS IGUAIS”,
A sua arte gritou.
Persistir, não desistir,
LIÇÃO DE VIDA.
SENHORA DA TERRA,
VOLTEI!
Sou A MULHER DO FIM DO MUNDO!
Do mundo invisível,
Mundo de fome,
Mundo de dor,
De preconceito.
PILÃO + RAÇA = ELZA
Mas VIVO FELIZ,
Minha TRAJETÓRIA é guerreira!
Sou carne, sou alma,
Sou estrela!
Sou ser que vive,
Que ama,
Que sonha.
Sou
Assim como você!
Teixeira e Elza,
Eternos na arte que liberta!
Passado e presente
Entrelaçados no tempo.
Tempo esse que não teve tempo
De curar a dor
Para tantas outras Elzas
E tantos outros Teixeiras.
Para esses tantos,
Passa-se ano a ano
E persiste o sofrer,
O preconceito insano
E a fome,
Que lhes faz doer.
(os trechos em caixa alta correspondem a títulos de obras do escritor Teixeira e Sousa e a títulos de álbuns gravados por Elza Soares)
Luciana G. Rugani
Escritora, poetisa, pensadora
e experimentadora da arte e da literatura
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