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REVISTA DIGITAL ALDEIA MAGAZINE - COLUNA CANTINHO DAS IDEIAS: VISITA À CASA DA FLOR

Saiu a edição 47, mês de novembro, da Revista Digital Aldeia Magazine, com minha coluna "Cantinho das Ideias", na página 100.
Nesta edição, falo sobre a visita que fizemos à Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia:


Quinta-feira passada (7), visitamos a Casa da Flor, patrimônio histórico e artístico de São Pedro da Aldeia (RJ) e patrimônio nacional tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Iphan. Apesar de já ter escrito sobre ela no meu blog e também ter feito o conto "O Presente de Aniversário", publicado na 1ª antologia "A Aldeia de Pedro", eu ainda não a conhecia pessoalmente. Fomos eu, meu marido e nossa querida amiga Aninha, sobrinha-neta de Gabriel Joaquim dos Santos, conhecido como "Seu Gabriel", o idealizador e construtor da Casa da Flor.
A Casa da Flor foi construída entre os anos de 1923 e 1985. E posso dizer: nenhum texto, nenhum vídeo e nenhuma foto são capazes de transmitir o encanto e a riqueza de detalhes que apenas uma visita ao local pode nos oferecer! É uma engenhosa obra arquitetônica! Seu Gabriel era, com certeza, um homem além do seu tempo. Era um sábio! Aprendeu a ler com 36 anos, mas o conhecimento de física, engenharia e arquitetura que possuía ficou concretizado em sua obra. O trabalho de Seu Gabriel me fez lembrar Leonardo da Vinci por terem sido, ambos, homens dotados de uma engenhosidade tecnológica acima do seu tempo. 
Outra característica de Seu Gabriel que muito me marcou foi seu amor pelos animais. Sr. Vivi nos mostrou o local onde jaz a primeira galinha das quais ele cuidou em seu terreno. Era sua galinha de estimação e, para ela, ele construiu o túmulo em uma parte da própria casa. Além disso, na parte de trás de seu terreno, há o local onde ele enterrou os três cães dos quais ali também cuidou. Eram suas companhias na casa e com quem ele conversava, sempre com muito carinho.
Ao visitarmos a Casa da Flor, somos recebidos pelo Sr. Vivi, como é conhecido o sobrinho-neto de Seu Gabriel, Valdevir Soares dos Santos. Ele é quem zela pela casa e quem possui muitas explicações e casos para nos contar sobre Seu Gabriel. Ele nos mostrou detalhes da casa que passariam despercebidos, se não fosse sua presença ali. 
A casa é toda de cal, barro e cacos, muitos cacos, além de outros objetos como lâmpadas, faróis, etc. Sua estética é marcada por similaridade e equilíbrio entre os lados da obra. Se há uma flor deste lado, há outra igual do outro lado. Logo na entrada, uma bela bromélia de cacos! Subindo a escada de degraus baixos e suaves, vamos observando as flores de ambos os lados e os cacos, muitas vezes restos daqueles azulejos antigos que hoje não vemos mais. 
Seu Gabriel anteviu o perigo que representam os recipientes abertos armazenando água de chuva e propiciando a proliferação de doenças, como, por exemplo, a dengue. As garrafas e vasos utilizados em sua obra ou estão de boca pra baixo ou sempre fechados, tapados com cal e barro. 
Sua casa possui até mesmo uma "geladeira", também construída de cacos e seguindo uma perfeita utilização da lei da física referente à movimentação de ar quente e de ar frio. Para seus visitantes que chegavam com calor, Seu Gabriel tinha sempre uma água gelada para refrescar seus pés. Ele captava a água da chuva em um pote de barro que colocava nesse lugar que seria sua "geladeira", e o pote gelava por meio da circulação perfeita entre os ares quente e frio.
Sua casa foi construída de frente para o lado de trás do terreno. Segundo Sr. Vivi, foi uma forma que Seu Gabriel encontrou de ficar sempre de frente para o monte das orações, localizado atrás de seu terreno. 
A casa não estava quente, apesar do sol forte daquele dia. E Sr. Vivi nos contou que, no inverno, também não é fria, e que o ambiente da casa se mantém, mais ou menos, com a mesma temperatura. Além disso, ele nos disse que a casa foi construída de tal forma que, tanto ao nascer, como também ao se pôr, o sol penetra no ambiente iluminando e trazendo um brilho maravilhoso ao seu interior. Seu Gabriel pensou em todos os detalhes de iluminação e de circulação de ar ao construir sua casa.
A Casa da Flor é uma obra que impressiona, não apenas por sua construção e arquitetura, mas também pelas reflexões às quais seu ambiente nos conclama. Tudo aquilo que ninguém queria mais e que não servia mais pra ninguém foi ali transformado em beleza, em flor e em moradia de um homem que sonhava com sua casa e que construiu a casa de seus sonhos. Um homem, naquela época tachado de louco por sua mania de colecionar cacos, mas que tinha a certeza de que sua casa seria perpetuada na história, um homem que sabia que, no futuro, a produção de lixo seria gigantesca e, daí, a necessidade urgente de aprendermos a reciclar e a reutilizar. Fica a lição maior de que, com amor, simplicidade, verdade de sentimentos e vontade, podemos transformar e requalificar também todo o lixo que, nos dias atuais, por vezes nos atinge, inclusive o lixo emocional.
A Casa da Flor merece todo o cuidado para que esse patrimônio maravilhoso nunca se perca. Penso que seria muito bom se seu acesso fosse mais bem sinalizado e o local onde se encontra recebesse maior cuidado e atenção. Infelizmente, a rua é estreita, sem local adequado para estacionar os carros, além de haver, em frente à casa, um terreno com grande quantidade de lixo descartado irregularmente. Fica aqui o nosso apelo para que o local onde se encontra a casa possa ser requalificado e organizado como todo grande e relevante ponto turístico merece.

Luciana G. Rugani
Acadêmica da Academia de Letras e Artes de Cabo Frio - ALACAF e da
Academia de Letras de São Pedro da Aldeia - ALSPA

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